26/12/2010

SETE PECADOS CAPITAIS / GULA

Introdução

Este é um espaço livre que se presta a qualquer tema a que me sinta bem em explanar ainda que sem muita propriedade, conhecimento. É um modo de instigar ocasionais leitores em me corrigir ou criticar. Não receio nem um nem outro modo de abordagem
Sempre me empolgaram os “sete pecados capitais”.
A origem deles remonta àqueles primórdios do cristianismo por obra do papa Gregório Magno (540-604), no final do século VI. Anteriormente, já fora esboçado pelo teólogo e monge cristão João Cassiano, nascido no hoje território da Romênia (370-435). (1)
Gregório Magno teria se inspirado também na “1ª Ep. de Paulo aos Coríntios” (versículo 13) que trata da “suprema excelência da caridade” mas ao praticá-la há a rejeição a vícios do homem.
Seria de Gregório Magno esta frase: "A bíblia é um espelho que reflete a nossa mente. Nela vemos nossa face interior. Das escrituras aprendemos nossas belezas e deformidades espirituais. E ali também descobrimos o progresso que estamos fazendo, e quão longe estamos da perfeição."
O sete pecados capitais foram acolhidos por Santo Thomaz de Aquino (nascido em 1225 - vivendo apenas 49 anos) sendo introduzido nos ensinamentos cristãos.

Com tanta erudição e influências dos religiosos mencionados não tenho a pretensão – claro que até por falta de mínima erudição – de tecer meditações profundas sobre o tema, pelo que nem quero repetir conceitos religiosos básicos consagrados de cada um dos sete pecados, que são:
orgulho – soberba; inveja; cólera, preguiça; avareza; gula e luxúria.

A gula


Sem qualquer compromisso de explanar sobre os demais pecados, começarei com a “gula” porque se trata, a “arte” de comer, do nosso dia-a-dia, indispensável e prazerosa.
Já se disse que todos os prazeres mundanos são efêmeros, isto é, eles resistem pouco: uma viagem tão ansiada se perde num maço de fotografias que com o tempo vão sendo esquecidas, o sono recompõe as forças, mas no fim do outro dia ele haverá que ser renovado.
Mas, e o comer?
Talvez seja, para os que desfrutem de relativa fartura um daqueles prazeres que deixam marca, a marca da gula.
As refeições não se limitam no dia-a-dia, elas podem se repetir com diferentes quitutes, várias vezes: um café reforçado, cheio de pães, presuntos, biscoitos e compotas, pouco depois, no almoço regado a frituras, carnes assadas, legumes na manteiga ou margarina, cervejas ou refrigerantes, doces amanteigados, saladas e quem sabe, frutas na sobremesa se não for sorvete.
À tarde para não perder a oportunidade, um café com bolo e, à noite, para comemorar qualquer coisa, uma massa bem feita ou mesmo pizzas “temperadas” com vinho.
No fim de semana, inevitável comparecimento à churrascaria para se deliciar de nacos de picanha suculentos e gordurosos e outros do rodízio - colesterol "in natura" -, chopes, várias canecas... (*)


A marca da gula esta na barriga e na sua circunferência. A balança silenciosa revela que antes registrara 80 quilos e agora mais de 90 quilos...
A barriga é notória, pontuda, não dá para esconder mais. Por causa dela, o manequim sobe dois números ou mais.
- Puxa fulano, você engordou. O pasto é bom, hem. Você consegue amarrar os sapatos?
Gozação sutil. Que vergonha!
Faz o teste de amarrar os sapatos. A barriga vai antes e suprime parte da respiração e dificulta o movimento. Amarrados os sapatos, parece ter havido um teste de fôlego, a respiração volta dificultosa.
- Meu Deus, preciso emagrecer!
O consolo é examinar as barrigas maiores e constatar que há ainda muito que avançar até alcançar aquele estágio de 120 quilos.
E os americanos comendo hambúrgueres, fritas e refrigerantes todos os dias? Milhares caminham imitando hipopótamos.
- Meu Deus, preciso emagrecer!
No supermercado tem início a tentativa:
- Quero mozarela magra, de búfala.
- Mas, não tem gosto essa 'muçarela', observa o atendente atrevido.
Mostra a barriga pontuda.
- Preciso começar um regime
E ele observa, encarando a barriga saliente:
- Mas, o senhor foi feliz, comeu do melhor. Saboreou.
Levou mozarela de búfala.
Mas, as massas da noite anulariam as calorias economizadas com a mozarela de búfala.

É isso aí, são sete os pecados capitais. Mas é a barriga que denuncia a gula, o guloso, o pecado
- Começo o regime no ano novo. Já há uns dez anos que tento, desta vez vai.
Será que contraio anorexia?
Ai, ai, ai...


Referências

(1) “Cassiano - bem poderia ser escolhido o padroeiro dos jornalistas - é o homem que, em torno do ano 400, percorreu os desertos do Oriente para recolher - em "reportagens" e entrevistas - as experiências radicais vividas pelos primeiros monges; já o papa Gregório (não por acaso cognominado Magno), cuja morte em 604 marca o fim do período patrístico, é um dos maiores gênios da pastoral de todos os tempos. (Jean Lauand - Prof. Titular FEUSP - IJI – Univ. do Porto, “São Tomas de Aquino e os pecados capitais”)

(*) “Gula” trata-se de crônica. Preciso esclarecer que não me alimento de carnes. Uma luta difícil pró-vegetarianismo. Agora, a barriga...


Imagem: "Hagar, o horrível" e "Helga" personagens criadas por Dick Browne. Direitos autorais: "King Features Syndicate".

20/12/2010

REGRESSÃO (III): CARROCINHAS

- Como vai nessa vida de riquinho?
- Você sabe, esses caras falam tanto em reciclagem hoje, mas meu pai sempre teve consciência de que a cata de papelão, lata seria espécie de limpeza do mundo. Pobrezinho, ele sempre me dizia isso, querendo externar algum orgulho pelo que fazia, puxando aquela carrocinha cheia de tranqueira que ia catando. E os garotos caçoando dele.
- Sabe que eu me lembro dele, com aquele chapéu batido, aquelas botinas gastas!
- Então, naqueles tempos que pulávamos a veleta no fim da rua e saíamos naqueles campos com mato baixo a cata de ovos de patas, as peladas memoráveis no campinho. Por causa de uma delas não ajudei o velho num dia em que logo cedo, disse que não estava bem. Olhou para mim, fiz que não era comigo e não saí com ele. A consciência ainda me dói, meu amigo, ele morreu puxando a carrocinha naquele dia. E como foi difícil encontrá-lo, ou o seu corpo, que já estava sendo tratado como indigente.
- Eu sei disso tudo. Só se falava nisso...

- A família precisa comer, minha mãe adoentada. E nisso vi que tinha que assumir a carrocinha. E fui assumindo ainda menino. Eu, mas você também fez isso, enrolava fio de cobre descascado numa peça de ferro para ficar mais pesado e lá vinham os trocados do ferro velho. Com alguns tostões íamos à venda para comprar copinhos de hóstia com bananada. Que tempos, cara, que tempos!

Foi por aí que fiquei riquinho, mas no diminutivo mesmo. Meu orgulho.
- Essa história de carrocinha e seu pai me leva aos meus tempos de infância, um pouco antes disso, ainda. Não me lembro bem se meu pai voltara ou não ao alcoolismo. Acho que não. Essa doença fora provocada pela própria grande empresa de bebidas naquilo que hoje chamamos de “happy hour”. No fim do dia, o consumo de bebidas ficava meio liberado, o chope e mesmo destilados que ela produzia naqueles tempos. Essa facilidade deu no que deu.
Eu ainda morava em São Paulo, na Lapa, bairro onde nasci.
Há desses momentos que você não esquece. Guardei para sempre pela gratidão que ficou. Fora, também, resultado de um impulso decidido, há quantos anos!
Naqueles tempos, a proximidade do Natal e do Ano Novo tinha um sabor especial, muito mais do que agora, certamente. As famílias se reuniam e usufruíam a ceia que todos se empenhavam em preparar . Minha mãe, excelente cozinheira, uns dois dias antes do Natal se unia às minhas tias e começavam a prepará-la. Todos se uniam, meus primos e primas, meus pais, meus tios que contavam "causos", mentirinhas mas, rigorosamente, havia um clima de emoção do Natal, desprovido do apelo comercial de hoje. Na véspera do Ano Novo, na virada, o radio espocava com a corrida de São Silvestre.
Quanto a mim, lembro-me bem, não sabia se meu presente de Natal seria bom.
Dias antes do Natal, meu primo fora ao "jardim de infância" para a festa da escola onde estava matriculado. Era perto de onde morávamos. As ruas eram praticamente desertas.
Fui com ele mas não tive coragem de entrar. Eu não "era" da escola.
Fiquei no portão e pude ver à distância todas as brincadeiras, as balas distribuídas e, para surpresa geral, no fim da festa, a escola distribuiu brinquedos a todos os alunos. As crianças que estavam fora, vendo os presentes nas mãos dos meninos que saiam contentes, permaneciam boquiabertas e tristes pelos brinquedos que não ganhariam do "jardim da infância". Muitos, nem do "Papai Noel" – que figura essa, que hoje me irrita. O cara todo de vermelho, barbudo, agasalhado num clima de quase 40°. C, com aquela risada ridícula: compre, compre, compre!
Eu não poderia ficar sem brinquedo também.
Criei coragem, entrei na escola quase vazia e vi-me numa sala ampla, toda enfeitada. .
Disse à mulher que lá estava. Não me lembro do seu rosto? Era jovem? era velha? Bonita ou feia? Talvez mais jovem que velha. Jeito de professora, com certeza:
- Também quero um brinquedo, afirmei meio trêmulo com os olhos voltados para o chão.
A mulher, surpresa com o pedido, olhou-me por alguns segundos e sem relutar pegou sobre um armário uma carrocinha de madeira, puxada por um cavalinho. Caprichada, perfeita. Estava desembrulhada, sem a caixa. Talvez por isso tenha sobrado. Entregou-me:
- Para você.
Foi demais. Inesquecível.
Minha mãe ficou surpresa e contente com o presente inesperado que recebera.
Jamais esquecerei essa carrocinha, pela forma como ela me foi dada.
Naqueles tempos e ainda hoje com jogos eletrônicos e tudo, há uma idade em que a criança se encanta com um brinquedo. E quando ele é dado como foi dada a mim a carrocinha, sem qualquer relutância, seu valor se multiplica e permanece para sempre na memória.
Há um sentido de leveza e intensidade na gratidão a lembrar e a relatar. Ainda que tenha sido há muito tempo. Enleva tanto quem concede sem relutar, como quem recebe. Para sempre. E não tem essa de sentimentalismo barato, de memória inútil.
- Eu também já ouvi essa história. Mas, isso já vai para quase um século e você não a esquece?
- Não tem como.
- Vamos descer para umas e outras.
- Fico num copo só, vou avisando.
- Eta cara chato. Ficou pior agora. Vamos lá então. Eu tomo o resto.



Imagem: "Catador" - http://www.comshalom.org/blog/carmadelio/date/2009/11

12/12/2010

A MATANÇA DAS BALEIAS E OUTROS BICHOS.

Com regularidade recebo mensagens do Greenpeace, ora se referindo a ações que promovem para combater o aquecimento global, preservação das florestas e outros ora pedindo donativos em dinheiro para campanhas em locais distantes do planeta.
A mais recente se refere a pedido de ajuda para combater a matança de baleias pelos japoneses.

A tradução tem lá suas dificuldades, mas a mensagem tem o seguinte teor:


Enquanto você lê este e-mail, a frota baleeira japonesa está se aquecendo nos rumos Oceano Antártico para iniciar o abate anual da baleia. A “quota planejada” nesta temporada é de cerca de 1.000 baleias minc, 50 baleias jubarte e 50 baleias fin ameaçadas de extinção.

Temos de parar este massacre agora.

Durante a campanha de 2008, o então senador Obama disse: "Como presidente, vou garantir que os EUA assumam a liderança na aplicação de acordos internacionais de protecção da vida selvagem, incluindo a moratória internacional à caça comercial da baleias." Mas já há três temporadas caça têm ido e vindo desde que Obama falou aquelas palavras, e nenhuma alteração foi feita.

E aqui o pedido de donativos:

Por favor, apresse sua contribuição mais generosa como uma pressão sobre o presidente Barack Obama para cumprir sua promessa de campanha!

“Permitir que o Japão continui a caça comercial é inaceitável", como o próprio presidente Obama declarou, e o Greenpeace está arregimentando apoio para pôr fim ao massacre, uma vez por todas.

A caça comercial não só é inaceitável, é uma violação do direito internacional.

Imagine um navio japonês apressando-se através do Oceano Antártico. De repente, o arpoador vê uma baleia mãe e seu filhote. Os sons do oceano são abafados pelas explosões de arpões que atingem a baleia.

E o relato doloroso que seria preferível ignorar, não saber:

A dupla luta para libertar-se das linhas de arpão durante quase uma hora, debatendo desesperadamente suas caudas na água, até que, finalmente, um pistoleiro do convés atira para que sejam morta de vez. A baleia mãe e o filhote são arrastados até rampa de lançamento da nave, deixando um longo rastro de sangue atrás de si.

Para nossa frustração, em poucos dias essa cena trágica no Oceano Antártico vai se repetir inúmeras vezes. O Greenpeace precisa da sua ajuda, e a ajuda do presidente Obama, para pôr fim à matança dessas criaturas de nossos oceanos, “as mais originais, inteligentes e emocionais.”


Além do Japão, também a Noruega e a Islândia caçam baleias alegando interesse “científico” mas que na verdade, em especial os japoneses, apreciam a carne do maravilhoso cetáceo, fazendo parte de sua “cultura”.
Países ditos civilizados praticando tal barbaridade sem concessões.

Essa cena dolorosa há mais de um século foi descrita por Herman Melville no livro “Moby Dick”:

“Como quando o cachalote ferido, que desenrolou da tina centenas de braças de arpoeira, depois de um profundo mergulho flutua de novo e mostra a corda frouxa e torcida erguendo-se a boiar e espiralando-se rumo á tona, assim Starbuck viu longos rolos do cordão umbilical de Madame Leviatã, com o qual o filhotinho ainda parecia amarrado à mãe. Não raro, nas rápidas vicissitudes da caça, esse cordão natural, com a extremidade materna solta, enrola-se na arpoeira de cânhamo, de modo que o filhote é assim capturado.”
(...)
No que se refere às tetas na fase da amamentação, “preciosas numa fêmea que aleite, são cortadas pela lança do caçador, o sangue e o leite que correm da mãe mancham à porfia o mar, por quinas de metros. O leite é muito doce e forte, tem sido provado pelo homem, iria bem com morangos.”
(1)

Ora, perguntareis:

Não há crueldade idêntica ou pior nos matadouros bovinos e caprinos, nos abatedouros de aves?
Não foi o Greenpeace que remeteu outra mensagem no “dia de ação de graças” deste ano, feriado americano, relatando seus êxitos enquanto, na véspera, eram abatidos milhares de perus, ave símbolo da comemoração? Que comemoração é essa em “dia de ação de graças” com tal matança?
E o “nosso” Natal com a matança dos leitões e também dos perus?

Sim, há. Este é o seu mundo, cara.

Mas, se esta é uma realidade dura, é chegada a hora de ir diminuindo essa prática. E por que não a partir das baleias, essas criaturas “mais originais, inteligentes e emocionais.”?

Já me referi em várias crônicas e artigos sobre os estragos ambientais que produzem o gado bovino – no Brasil o maior rebanho do mundo - criado “artificialmente”, no que concerne à devastação das florestas, emissão de gás metano pela sua defecação.(2)
Se a humanidade não se convence de que a carne é dieta dispensável ou que pelo menos tivesse consumo menor, “tudo bem!”, mas que fiquem em paz as baleias na imensidão dos oceanos. Comecemos por elas a nossa contenção à imensa crueldade que praticamos contra os animais, melhorando nossa moral perante eles e, principalmente, perante nós mesmos, absorvendo aqueles sentimentos de paz e amor que eles, no seu habitat e a seu modo, inspiram.


(1) Já fiz referência a essa obra na crônica “Baleias, Caranguejos e Tartarugas” de 27.02.2010.
(2) O artigo mais recente constitui-se uma resenha que publiquei no portal www.votebrasil.com e no http://martinsmilton2.blogspot.com/ de 21.11.2010. Há um resumo do relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente que trata desse tema, inclusive fazendo referência à mudança de hábitos alimentares.

Fotos:
1. Baleias orca, from http://www.portalsaofrancisco.com.br
2. "Açougue" (Google)

05/12/2010

PÁSSAROS

Os passarinhos, por instinto, fogem dos homens. Sabem que aqueles bípedes gigantes significam ameaça e perigo de crueldade.
Aqui do meu “escritório” de casa – já me referi a isso – muitas vezes fico assistindo esses pássaros avançando com apetite em fatias de mamão e banana postas sobre o muro. Mesmo à distância, bastou em gesto qualquer é eles esvoaçam com toda a pressa possível e, só depois, quando não notam mais a ameaça voltam para continuar a refeição.
Há algum tempo, num dia em que não me situava muito tolerante com tudo e com todos, chego até a loja de produtos de consumo animal e me deparo – como até hoje lá estão – aquelas gaiolas mal cuidadas com uma dezena de passarinhos massacrados entre as grades.
Perco a paciência e indago à atendente que sempre tão bem me atendia:
- Qual o preço de todos esses passarinhos?
- Deixa ver. Uns R$X.
- Tudo bem, levo todos. Coloque-os naquela gaiola ali que daqui a pouco volto para buscá-los. Vou soltá-los todos no parque...
- Mas, o senhor não pode fazer isso. Todos morrerão porque eles nasceram cativos e não sobreviverão na natureza.
Resigno-me, dou um soco na parede e me retiro contrariado. “Esse é o seu mundo, cara.”


Meu contato “íntimo” com passarinhos, pela sua desconfiança, foi mínimo. Já relatei a experiência com beija-flor quem sabe atraído pelo perfume do suco de uva, perdeu-se na sala e, por mais que fosse encaminhado para a saída, não conseguia sair. Batia no vidro, nas paredes, num ambiente que nunca seria o seu. Cansado se entregou. Com cuidado eu o peguei no chão. Um chumaço de penas. Olhinhos pretos esperando a vez como se estivesse sob as presas de um gato esfomeado.
Soltei-o e ele, talvez para recuperar o fôlego, empoleirou-se numa pinheiro por perto.

Mas, foi com um exemplar admirável de calopsita que me trouxe intimidade com um passarinho admirável, inteligente que “sabia o que queria”.
O exemplar pertence a um meu filho caçula, que ficou por uns tempos por aqui.
Sem poder voar porque suas asas foram cortadas – pelo mesmo motivo dos passarinhos engaiolados – com seus piados estridentes exigia companhia e, com aquele seu bico cortante andando pelo teclado do computador, quase cortou o fio do mouse e do próprio teclado.
Sempre de ombro a ombro, quando comigo, encarando-me com aqueles seus olhinhos pretos, seu topete amarelo empinado, havia algo de paz com sua presença. Algo inspirador, de inofensivo, de inocência, de anjinho.
A cena mais surpreendente deu-se numa tarde quando todos falavam na sala. Ele lá no canto, em sua gaiola aberta, piava alto reclamando por companhia, já que nós éramos suas asas. Não atendido nos seus apelos, sem nos ver, apenas o som das vozes porque a sala é em L, desceu da gaiola e com aquele penacho empinado, piando alto veio até nós, cerca de 12 metros até escalar os ombros pelos nossos pés.
E como assoviava bem acordes do hino nacional, repetindo sempre que atendido, a palavra que aprendera: “gotosinho”, “gotoso”
Ele vai fazer falta, mesmo exigente como era. Ah, se vai.

Passarinhos são um passatempo de Deus...


Todos se lembram do filme “O Pássaros” de Alfred Hitchcock de 1963, a história de milhares de pássaros que avançam sobre uma cidade e atacam violentamente os moradores. O filme pode ser interpretado de várias maneiras. Em 1963, bem me lembro, a ecologia não estava em voga, não havíamos chegado aos limites que chegamos neste século 21 de absoluto desrespeito ambiental a despeito das severas advertências do que está advindo desses atos insensatos e até um tanto suicidas.
Pois bem, o jornal “O Estado” do dia 21 de novembro, ilustrada com foto de quase meia página, trouxe a seguinte notícia, curta, em transcrição literal:
“Um bando de pássaros é flagrado pela fotógrafa Kaia Larsen, da AP, ao cercar um avião militar E-68 nos Estados Unidos. A imagem foi feita no dia 29 de outubro, mas só agora divulgada. O avião conseguiu pousar em segurança em Arkansas, e as aves o perseguiram até bem perto da pista. Não se sabe o que as fez ter esse tipo de comportamento.”
A notícia se encerra assim, desse modo lacônico. Que se saiba, não houve qualquer pesquisa para pelo menos “teorizar” o que fez as aves terem “esse tipo de comportamento”.
Os pássaros!

28/11/2010

DIAS AMARGOS

Há dias em que as coisas amargam.
No domingo voltara a ver a minha cachorrinha preta, com doença grave, que a deixava prostrada e sofrendo. Por causa da doença, perdera aquele seu brilho nos olhos e agora me olhavam suplicantes.
Dizia para ela que sua doença era grave. Inteligente, ela parecia compreender mas contava comigo.
Exatamente naqueles dias em que o quadro da minha preta se agravara eu escrevera sobre São Francisco e os animais.
Que situação contraditória, que experiência essa eu não gostaria de ter!
Saio para umas andanças e vou visitar a muda de “pau-brasil” que plantara na área verde próxima daqui, que por muito cuidara. Outras árvores plantara há tempos que floresceram.
A muda de “pau-brasil” que florescia muito bem, estava partida no meio do seu tronco ainda frágil. Quem poderia ter praticado aquele ato estúpido?
Um soco na cara.
Quem sabe ela ainda brote do que restou, renascendo e florescendo? Difícil!
Moralmente a nocaute liguei a muda arrebentada com o sofrimento de minha cadelinha.
Estivera por aqueles dias no veterinário.
Relatei a um outro “paciente” que levara seu cão para tratamento, o estado de minha cadelinha, tentando esconder a emoção;
- Ela já está comigo há 17 anos, e está muito doente!
O meu interlocutor simplesmente comentara:
- Não é possível tratar um cachorro como um ser humano, é preciso separar as coisas...
Algo assim, nesse sentido. Essa observação me fizera mal.
Mas, é claro que não poderia, a minha cachorrinha ser tratada como um ser humano. Ela não era humana, mas um animal angélico. Uma humilde vira-lata. Não exagero sob os efeitos da emoção, não!

Era ela quem me chamava latindo ou choramingando sabendo que eu chegara, se não fosse vê-la apenas por um instante até ao anoitecer;
Era ela que feliz ia à minha frente nos rumos do quintal do fundo certificando-se se eu a seguia; lá me fazia companhia, me observando sentado no banco que ali há, fuçando e se espojando no gramado. Foi nesse quintal que li, com ela por perto sempre, a maior parte do imenso “Guerra e Paz”, de Tolstoi.
Era para ela que recitava carinhos que os recebia sempre com gratidão;
Era ela que reclamava dos banhos sob a torneira nos dias quentes e ficava exultante após se sacudir toda;
Era ela incondicional com a família mas principalmente comigo.
Não, ela não poderia ser tratada como ser humano, porque são poucos os que agem desse modo incondicional com os semelhantes. São Francisco?
Ela se foi. A doença a consumia de um modo atroz. Não havia como suportar.
Ficou comigo a amargura do que me obriguei a fazer, uma experiência que me diminuiu, mas a sua doçura haverá de temperar esse desgosto.

Fotos:
1. Flores do pau-brasil
2. Preta e eu

21/11/2010

MEUS 40 ANOS

Esclarecendo: a efeméride a que se refere esta crônica já se deu há MUITO tempo. Nem esta crônica é nova, mas eu a colhi do “estoque” porque adiei uma outra sobre “ataque” de pássaros que ainda preciso escrever. Hoje as asas da inspiração não alçaram voo...

A vida começa aos 40 e a velhice na cabeça de cada um...

No exato dia do meu 40° aniversário, postei-me no fim da tarde na sorveteria das Lojas Americanas de Santo André, no calçadão da principal rua comercial, refletindo, com um sorvete na mão, o que significava, efetivamente, para mim, ter alcançado aquela idade.

Sentia-me iluminado e inspirado. Um retorno ao passado saudoso fez-me rabiscar mais tarde (sim, rabiscar, primeiramente, porque computadores eram equipamentos de iniciados, e eu era sofrível datilógrafo), uma crônica publicada alhures, sobre aqueles momentos e o passado nem sempre vivido com a intensidade que seria desejável. Fora falta de aviso, com certeza. Algo assim:
- Viva intensamente esta década, a década de 60, porque ela será um marco de referências.
Mais poderia ter feito e vivido. Mas, eu desconhecia ou não sabia como construir esses momentos de felicidade. Talvez ela estivesse comigo todo o tempo mas apenas não explodiu como poderia.
Um momento inesquecível, hoje hilariante, constrangedor então, que quando dele me lembro me faz rir pelos cantos e pelas ruas, ocorreu a partir de uma aula de filosofia no colegial.
Dentro da minha irreverência, nas aulas de filosofia eu me tornara um aluno "inconveniente" para meu professor da matéria. Misturava conceitos de suas aulas, com rudimentos esotéricos que então começava a me iniciar, e a cada interrupção que fazia, mais ficava o mestre perplexo e confuso. Boquiaberto mesmo. Não, é claro, pelo meu brilhantismo, mas pelo que poderia se chamar de "samba do ‘filósofo’ doido".
Sendo um sujeito sensível, certamente que para conviver com minha "inconveniência", minhas notas sempre foram ótimas. Porque, sobretudo, penso eu, havia uma mútua simpatia e ele, para retribuir essa reciprocidade, me garantia notas excelentes em sua disciplina. Ou simplesmente para não me ver no ano seguinte, repetindo a sua matéria, tendo que me aguentar.
Mas, nessa disputa para mostrar conhecimento, ainda que desconexos, ocasionalmente ocorriam dissensões.
Havia na minha classe um sujeito metido a Ruy Barbosa, que assim pensava porque carregava, também, o sobrenome Barbosa.
Certa feita, desdenhara a classe toda, solicitando ao mesmo professor de filosofia que repetisse determinado conceito porque somente ele, por certo, o teria entendido.
Não fiz por menos:
- Falou o gênio Barbosa que não é o de Ruy.
Acabada a aula, com delicadeza ele chegara até mim, perguntando suavemente se aquela observação fora para ele. Respondi secamente:
- Se o capuz lhe serviu, use-o.
Traiçoeiramente, desferiu um belo soco no meu queixo. Meus óculos voaram pelo corredor. Senti todo o peso de sua mão fechada no meu maxilar. Chegou, é claro, a turma do "deixa disso e pôs as coisas no lugar".
A agressão não teve maiores consequências, somente imensa repercussão no colégio. Meus amigos faziam troça, olhando para meu queixo, procurando algum estrago "merecido". Um deles, gaiato, muitos anos depois, sempre que me encontrava fazia questão de relembrar a cena do soco, examinando meu queixo e fazendo troça dos meus óculos subindo alguns palmos no éter.
Repassando esse evento ali, na frente da sorveteria das Lojas Americanas, agora do alto dos meus 40 anos, na rua movimentada, mal consegui conter o riso.
Eis que minha atenção é despertada para um idoso com a Bíblia na mão. Associei a um amigo, muito religioso, desses que assumem a religião, com intensa fé, com desconcertante convicção.
Alguma vezes tentara me ensinar lições da Bíblia, mas essa tarefa nunca dera certo, porque tinha eu por hábito, como até hoje tenho, de fazer questionamentos "inconvenientes". Já me referi a isso em outros escritos que às vezes a Bíblia revela sua profundidade no silêncio da meditação.
Discutia muito com ele sobre religião. Em sua opinião, a China naqueles dias já pós Mao Tse Tung, uma potência nuclear que parecia olhar com desprezo o ocidente e seus "pecados" , seria a alavanca do apocalipse bíblico. Ao visualizar a China, então, eu a enxergava cinzenta, talvez porque a roupa padrão normalmente nessa tonalidade do chinês retransmitisse em minha mente essa cor como sendo do próprio país.
Eis que, num daqueles dias, o "Estadão" estampou manchete significativa, algo assim: "A China abre-se para o mundo".
Mostrei-lhe a manchete. Ele não se abalou e fez até um sinal de conformismo.
Naquele instante, com alívio, quem sabe, passara a adiar o apocalipse que "profetizara" iminente. (*)
Com essas lembranças, saí pelo calçadão, emocionando-me com o semblante humilde de algumas pessoas que passavam ao meu lado ou vinham em minha direção. É que as quarenta velinhas resplandeciam intensas na minha interioridade.
Só via beleza por todos os lados.

(*) Não é nestes Temas que faço observações de natureza política mas acho oportuno neste caso.
Anos depois da manchete do jornal, em 1989, viajando aos Estados Unidos já ocorrendo a invasão de bugigangas asiáticas, os carros japoneses se impondo com o binômio preço-segurança, fiz questão de trazer na bagagem algum objeto genuinamente americano.
Depois de muito procurar, encontrei um rádio-relógio GE, marca tradicional. Quando o tirei da caixa e o examinei com atenção lá estava: “made in Malásia”.
Mais tarde tive oportunidade de ouvir a preleção de uma comissão chinesa comandada por uma representante que falava relativamente bem o português. Estava, se bem me lembro, pesquisando meios de comercialização do etanol. Recusava-se em discutir o regime político chinês muito mais fechado, então. “Estamos aqui a negócios”.
Bem. Deu no que deu. A China invadiu o mundo com suas bugigangas a preços irrisórios e agora ataca com produtos de alta tecnologia. Se a China é apocalíptica o será pela emanação de gazes tóxicos na atmosfera, agravando o “efeito estufa”...juntamente com as outras grandes e médias potências.

Foto: Rua Coronel Oliveira Lima - Santo André - década de 90 (PMSA)

14/11/2010

SÃO FRANCISCO, OS HOMENS E OS ANIMAIS


Para a resenha destes livros sobre São Francisco acessar:

http://resenhadoslivrosqueli.blogspot.com.br/2017/06/5-sao-francisco-de-assis.html

Pássaro amigo de São Francisco e seu canto: as cotovias





07/11/2010

PENSAMENTO FORTE

Já disse. Trabalhei a maior parte de minha vida profissional em multinacionais do ramo automobilístico.
Salvo na fábrica da Chrysler da cidade de Santo André (SP) há muitos anos extinta, talvez pelo meu modo de ver as coisas a despeito da minha atividade profissional sempre me considerei um anônimo no meio daqueles gerentes, supervisores e mesmo da peãozada toda.
Tinha um nome que até poderia soar forte na empresa, mas me sentia absolutamente desconhecido e desconhecia todas aquelas pessoas com as quais me relacionava no dia-a-dia
Vou dar um exemplo real da face2 usada dentro da empresa.
Eis que num fim-de-semana caminhando num lado qualquer do bairro, dou de cara com um gerente da empresa que se aplicava no jardim e numa horta de sua casa com a mão mergulhada na terra e no esterco, manejando enxada e regador.
Na segunda-feira, assim que eu o encontrei na fábrica, fiz provocação amistosa:
- Poxa, no sábado você foi aprovado como jardineiro, hem!
Resposta inesperada e constrangida:
- Não conte isso para ninguém.
Fiquei perplexo. Na fábrica ele usava a face2. Não me dera conta disso até então...
Ao longo desses anos todos, exigente comigo mesmo e com os meus pares, comecei a entrar num terrível processo de tédio, assistindo reuniões horríveis, aguentando colegas com alto grau técnico e zero – que eu conhecesse ou que se deixassem conhecer – em atitude humana, de interioridade, de subjetividade.
Numa multinacional para a qual trabalhara, certo dia surgira novo presidente um americano alto, loiro, cabelos mais para o grisalho, rosto magro e avermelhado, nariz empinado. Viera para proceder à reestruturação da empresa.
Iria “cortar na carne”, anunciava a “rádio peão”.
Criou-se um clima de expectativa e terror. Esse sujeito se impunha pela truculência verbal, expressando-se num português razoável.
Já pouco afinado por tudo isso que acima relatei e adquirindo antipatia incontornável por esse gringo, por várias vezes disse alto e pensei:
- O melhor para mim seria a demissão acrescida do pacote especial e tomar outro rumo na vida.
Porém, num processo contraditório, pus-me a ler, imaginando uma melhoria com a reestruturação que se desenhava e também por curiosidade, um livro não comercial de autoconhecimento e uso das “forças mentais”.
Na reunião decisiva da reestruturação, a despeito de toda minha dedicação, assim imaginava, fui preterido, sendo demitido.
Dera-se, sobretudo, um choque de desejos entre aquilo que passara a ler no livro citado e aquele pensamento forte anterior como o ideal (demissão).
Pelo que soube mais tarde, alguns daqueles gerentes a quem dera apoio, sempre, haviam também votado pela minha demissão.
Passado aquele momento amargo, inédito, porque nunca tivera tal experiência, refleti muito.
Na verdade, eu pedira mentalmente aquele desfecho.
Ademais, pelo meu tédio, rejeitando mentalmente dirigentes, julgando-os ignorantes devo ter alimentado por meses e meses, muitos inimigos não declarados resultado do rebate negativo do que eu pensava fortemente sobre eles.
O dia seguinte, sábado, fora um dia doloroso. Jamais imaginara que depois de tantos anos dedicados às empresas viveria essa experiência. Imaginava ser “imortal” nelas. Bobagem. E que bobagem.
Fora um pesadelo. Muitos se sucederam em estado de semivigília. Via-me chegando à empresa pela manhã, rumava para minha sala, não a encontrava ou havia alguém estranho sem rosto no meu lugar. Caminhava, então, pela fábrica como um fantasma, via sem ser visto, renovando a angústia da demissão ao acordar.
Soubera após administrar centenas de demissões nas várias multinacionais para as quais trabalhara os efeitos danosos que produziam nos demitidos.
Lembrara-me da angústia dos empregados humildes, que tentavam de todas as formas garantir seu emprego, implorando por uma transferência para outra seção ou para a matriz em outra cidade. E meu constrangimento em processar demissões de colegas próximos com quem compartilhara com lealdade êxitos e fracassos, por anos a fio.
- Recebera minha paga, pensara. Sentira o amargo do fel.
Nos dias que antecederam à minha saída definitiva da empresa, ex-subordinados bajuladores ou não, colegas do dia-a-dia, passaram a ignorar-me – da mesma forma como se daria nos sonhos -, como se receassem o contágio duma doença incurável. Mas, a despeito disso, sempre cuidara para que diante de mim próprio não fizesse o papel canastrão, de vítima. Quais lições tirei desse evento real?
i.) Que o pensamento é uma força que precisa ser cuidada. Há então se esforçar muito para superar, em relação ao seu antagonista, sentimentos de raiva, de intolerância e de dúvida. Haverá, pois, que mentalmente mudar o modo de pensar em relação a ele e transmitir pensamentos positivos de tolerância recíproca para que ele também mude o modo de agir. Esse exercício funciona.
(Não estou nem de longe tentando passar lições de autoajuda com o meu relato. Se tem algo que receio é ser ou parecer ridículo).
Já emiti pensamentos que não direi quais – porque são só meus – que vi repetidos a mim por pessoas próximas, para minha surpresa;
ii.) O pensamento forte obedece ao seu emissor, podendo provocar desgostos ou êxitos.
(Reconheço que há eventos que fogem dessa fórmula básica, provenientes, acredito, de outras causas pendentes na vida. Mas, esse é um outro tema).

De tudo isso que relatei, conclui por fim que há profissionais que nasceram para ser executivos e, menos que críticas, há que se esforçar para entendê-los.
E quanto a mim com a experiência relatada de perdas e ganhos: mais ganhei do que perdi.
Sabem por quê?
Porque para mim “tudo está ótimo!”



Imagem: He-Man, “Eu tenho a força” (Google)

31/10/2010

A HISTÓRIA DE UMA EDIÇÃO. Errinhos que humilham

Saibam, meus amigos, que nessa história de publicação e artigos, tive meus momentos de glória. Ilusórios, passageiros, mas, momentos!
Desde sempre fui assinante do jornal “O Estado de São Paulo”.
Um dia, já faz tanto tempo, escrevi um artigo de natureza jurídica (“O artigo 581 da CLT”). Eu o achei bom e remeti para o citado jornal.
Umas duas semanas depois, quase tive um desmaio ao vê-lo publicado na página que então havia de artigos jurídicos, ao lado de outros juristas. Salvo engano os temas trabalhistas nessa página eram coordenados pelo saudoso ministro Rezende Puech (do TST).
Alucinado, depois de algumas semanas, remeti outro, também publicado. A “glória” meus amigos.
Naquele primeiro artigo fiz críticas ao posicionamento da prestigiosa Editora LTr a respeito daquele dispositivo numa das suas edições da CLT. A Editora respondeu explicando os seus motivos em boletim próprio.
A partir daí, a aproximação com a Editora fora um passo. Escrevi diversos artigos em seus boletins e mesmo na Revista LTr, na qual só cabiam juristas da área trabalhistas.
Meus artigos lidos hoje, por mim? Modestos!
O principal dono da Editora, Dr. Armando Casimiro Costa, pode ter ido com a minha cara, tanto que me convidou, num dos congressos patrocinados por ela, Editora, para palestrante numa das seções.
Não muitos anos depois, elaborei um programa de treinamento de relações trabalhistas e sindicais para uma multinacional trazendo toda a minha experiência do ABC.
Submeti esse programa à Editora LTr. Foi ela reticente em aceitar a publicação o que determinaria, por mim, o abandono da ideia.
Depois de um cartão de Natal normal que remeti, ele me respondeu solicitando que eu remetesse novamente os originais.
E assim surgiu a primeira edição do meu “Sindicalismo e Relações Trabalhistas”.
A segunda edição não demoraria porque o livro fora adotado por uma amigo meu, Edmir de Freitas Garcez nos seus cursos “Negociando com negociadores”.
A terceira edição foi muito melhorada mas a editora não cuidou bem da revisão, o que me obrigou a responder críticas vindas até da Bahia.
Finalmente, a quarta-edição, que poderia ser a minha contribuição “profissional” para o tema, foi escrita às pressas a despeito do volume imenso de informações que me obrigara a compulsar, saiu com falhas minhas.
Quando isso acontece e você vê os errinhos com o “dedo em riste” apontando em sua direção, impossíveis de serem corrigidos, tudo fica meio deslustrado. Imperdoável, porque toda a edição poderia ser muito melhor.
“Aconselho”, pois, a todos os escritores, às voltas com a edição de seu livro, que deem o máximo e o revisem tantas vezes quantas necessárias. Insiram e completem. Nada de preguiça.

Aonde foi parar toda essa gana de jurista? Já disse alhures que, no fundo no fundo, com suas exigências e metas a alcançar, a empresa de certo modo enterra o talento que se desvia para ela e por conta do salário no fim do mês.
Tudo isso se passou num estalo de dedo. As ilusões.



Errinhos que humilham

A propósito do tema, escrevi alhures uma crônica que transcrevo em parte. Assim,

Esse título não é meu. É do saudoso escritor mineiro Otto Lara Rezende que, numa crônica no jornal “Folha de São Paulo” de 18.01.1992 o utilizou no singular.
Mas, eu já vou logo grafando no plural, “errinhos que humilham”.
Inicia o cronista se queixando de erros de revisão que se davam, eventualmente, nos seus escritos, lembrando que “quando surgiu o computador na imprensa, pensei que vinha para acabar com essa gralha. Qual o quê. Sofisticou-a”.
Com o computador, dizia o escritor, não seria mais possível atribuir a revisor os erros do autor.
E nestes dias, então, com o notório avanço tecnológico e da comunicação? Não sei, não. Há “mistérios insondáveis” nos errinhos que humilham.
Com computador e tudo, ao longo do tempo, já me deparei com empastelamento em textos que escrevi, corte da conclusão, a essência do texto, para caber no espaço do veículo e até mexidas insuportáveis de quem entendera pouco do que nele se debatia.
Como explicar um erro tal num título de artigo no qual “queremismo” foi grafado como “quirimismo”? Ou a expressão “ato contínuo” com o sentido claro que contém e que foi impresso como “um ato contínuo”, significando que a inclusão do numeral “um” estreitou sua abrangência?
Para aqueles que se propõem a escrever publicamente o português é um desafio permanente, porque muitas vezes se sabe que a regra “é assim” mas não “o porquê de ser assim”.
Outro ponto lembrado por Otto são os erros do próprio cronista que insere um dado equivocado, uma desinformação, na crônica. Sem volta porque a eventual correção posteriormente é inócua ou com efeito limitado. E dizia: “Qual! Fica o travo da pequenina humilhação que me convida à humildade.”
Saibam todos, pois, que o cronista se depara com erros ortográficos dele próprio e, pior – afaste de mim esse cálice – erros de concordância. E isso mesmo tendo lido o que escrevera várias vezes.
Saibam mais os leitores que o cronista em cada crônica enfrenta esses vilões e escorregões. Ele cria, escreve e...erra. Um “sofredor”. E muitas vezes paga por erros que não são seus.



Imagem: O coelho de “Alice no país das maravilhas”. É tarde, é tarde! O tempo passou, mas sempre é tempo.

24/10/2010

REGRESSÃO (II): Primeira Comunhão

Situo-me num bairro pobre, num tempo tanto de paz como de simplicidades, lá pelos idos de minha infância já num estágio de compreensão das coisas. Casa simples, quintal no fundo, cerquinha de taipas, portãozinho mal fechado que dava para um terreno desocupado. Nos dias de muita chuva, o rio transbordava, chegando a água imunda até ali perto.
Tinha por hábito atravessar o rio pela ponte de madeira a poucos metros, nos tempos secos e rumar para a casa de um amigo da família que morava morro acima. Um braço de rua à esquerda que terminava numa valeta na qual corria água fétida que desaguava no rio. Quando chovia, transbordava, trazendo todo tipo de objetos varridos das casas ribeirinhas.
Nessa rua, casas humildes, água de poço, muita precariedade mas não percebia amarguras, queixas da vida...
Em muitos domingos recebi balas dos filhos do proprietário de muitas daquelas casas simples que ia receber os aluguéis. Muitas vezes seu carrão não conseguia entrar rua abaixo nos dias de chuva, pelo barro que se formava.


Havia na beira das cercas pés de dálias que cresciam mais de um metro, dando flores enormes.



Giestas viçosas, suas florezinhas amarelas brilhavam ao sol naqueles tempos em que não se falava de poluição. Hoje são raras.



Até hoje procuro por violetas miúdas, que proliferavam cujas flores exalavam, se bem me lembro, leve perfume. Perto da valeta, um pé de “copo de leite” com flores imaculadas o ano todo resistiam a todas as agressões dos moleques e das enchentes.
Muitas tardes ia para essa rua, encontrar a molecada amiga. Ficava um pouco mais até a noitinha quando havia a reza do terço, cada mês numa casa diferente.
Ria muito daquilo tudo e, ansioso, esperava o fim da reza, ao amém, para participar dos refrigerantes que não faltavam nessa hora ou de licorzinho leve de anis ou hortelã.


No último dia de aula daquele ano chovera muito. Fiquei à espreita agarrado no pé de amora, vendo a água se aproximar alegando tudo por ali. Ela chegou mais uma vez perto da cerca do meu quintal, mas não passou dali, como nunca passara.
Saí às pressas para a aula, seria a despedida da professora.
Pela surpresa, aquele dia fora importante. Passara o ano inteiro sem uma falta sequer recebendo da professora, elogios, um livro de presente, lembrança desse feito inédito. Palmas.

Dois dias depois, num domingo, minha mãe falou da primeira comunhão, menos que um ato de fé, um costume que não poderia ser abandonado. Meu pai não interferira porque não se aproximava da Igreja. Meu tio era crítico cáustico da religião. Vez por outra ele chegava até nossa casa, com um caminhão tanque enorme de “querosene jacaré”, com maços enormes de dinheiro à vista de todos.


Interessei-me pela 1ª comunhão até porque não havia outro meio, então. Algum tempo depois comecei a frequentar o catecismo na denominada matriz velha da cidade.
Quando se aproximava a data, a beata que conduzia as aulas constatou que eu não decorara o “Credo” e “Salve rainha” Me ameaçou de ficar fora da comunhão.



Lá fui, então, decorar essas orações e reforçar outras.
O dia da comunhão chegou, um domingo que marcou porque minha mãe fez uns bolos, uns doces uns sanduíches e guaranás.
Se disser que não me senti um pouco acima do chão, depois da comunhão, estarei mentindo.
A partir dali voltei-me religiosamente para a missa dominical e me engajei entre os “congregados marianos” identificados com a fita amarela, passando pelo pescoço e ombros. Ficavam próximos da sacristia acompanhando a missa de perto. Eu recebi uma fita azul – que significava, que me lembre, a condição de aspirante.
Nunca perguntei o que significava aquele grupo dos “congregados marianos”.
Sempre que havia tempo, à tarde, ia para a igreja sabendo-a vazia, na certeza de encontrar linda menina que me fizera perder na paixão, aquele enlevo que só nessa idade se sente.
Ela, porém, tinha nome tradicional na cidade e seus pais estavam muito bem de vida. Esse enlevo perdurou por algum tempo mas havia esses obstáculos, o da pouca idade e diferença social, situação importante naqueles tempos, na cidade.
Esta tão ingênua poesia, remonta àqueles tempos. Vacilo hoje em lembrá-la exatamente pela sua ingenuidade mas me encorajo, imaginando que ela possa explicar esse “encanto” e minhas motivações que não se perderam neste meu mundo de hoje que nele batalho em algumas frentes sem esmorecer e a tudo agradecer!:

Menina
Morena
da cidade
das flores,
alegre
tão meiga
sincera.

Eleva
enleva
encanta
se fala
se olha
se chora
se ri.

Do rosto
lmpidos
olhos
estampam
pureza
sublime
beleza.

Ah! menina
morena
és dona
de tudo
da Natureza
do mundo
e mesmo
de mim...

Um belo dia, não sei explicar bem, esse estado religioso foi abandonado de modo abrupto. Não sei se pelo amadurecimento quando novas informações chegam, o ginasial e os novos amigos, questionamentos de toda ordem, a maturidade sexual que se faz presente...e nessa época converti-me num péssimo aluno. Mas, nada que não recorde tudo com carinho.

Mais tarde, por razões que já revelei, enveredei pelo rosacrucianismo, ocultismo e até rudimentos do espiritismo.
Volto um dia a este assunto, embora já tenha me referido a ele em outras crônicas neste espaço.


Fotos:
Dália
Flor de giesta
Igreja: Matriz "velha" de São Caetano do Sul

17/10/2010

DOS LIVROS QUE NÃO CONSEGUI (AINDA?) LER. E os já lidos

Há livros que vou e volto e não consigo ir em frente na leitura até o epílogo.
Acho que a cultura perdida num livro não lido pode estar em outro qualquer mais palatável, menos rebuscado.
Há autores que sobem tanto o degrau da intelectualidade que são, para mim, inatingíveis. E livros inatingíveis quando assim os considero, não precisam ser lidos.


Aqui me refiro às obras seguintes entre outras:
"Os Sertões" de Euclides da Cunha
"Grande Sertão: Veredas" de Guimarães Rosa 

"Raízes do Brasil" de Sergio Buarque de Holanda
Friedrich Nietzsche
"Ulisses" de James Joyce
"1984" de George Orwell
"Admirável mundo novo" de Aldous Huxley

"O Presidente Negro" de Monteiro Lobato


Euclides


“Os Sertões”


Para comentários de "O Sertões" de Euclides da Cunha, acessar:

 http://resenhadoslivrosqueli.blogspot.com.br/2017/06/6-os-sertoes-de-euclides-da-cunha.html


Grande SER-TÃO: Veredas

Para comentários de "Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, acessar

http://resenhadoslivrosqueli.blogspot.com.br/2017/07/grande-sertao-veredas-de-guimaraes-rosa.html





“Raízes do Brasil”

Sérgio Buarque de Holanda, edição da Companhia das Letras de 2004, com 220 páginas (a 1ª edição é de 1936).

Trata-se de uma obra que exige concentração mais apurada na leitura de tal modo que se obtenha o preciso sentido dos conceitos emitidos pelo autor. Creio mesmo que seria bom que fizesse uma segunda leitura do livro  como preciso fazer de “Os Sertões” de Euclides – compromisso que estou em débito.

A referência às raízes do Brasil, significa que o autor voltou aos tempos da colonização portuguesa e bom que se diga que não é ele crítico na medida em que afirma que não é (sempre) possível subestimar a “grandeza dos esforços” de Portugal na exploração das novas terras, embora não nega que tudo se fez “com desleixo e certo abandono”.

Mais, a frente, ao tratar da “persistência da lavoura de tipo predatório”, a exemplo do que denunciara 
Euclides em “Os Sertões”, não deixa o Autor de destacar o uso do fogo na agricultura quando chega aos detalhes de explanar sobre o uso da enxada e do arado:

“Mostra-se nesse trabalho como o recurso às queimadas deve parecer aos colonos estabelecidos em mata virgem de uma patente necessidade que não lhes ocorre, sequer, a lembrança de outros métodos de desbravamento”.

A prática do fogo permanece até hoje, como se sabe, devastando largas extensões de florestas brasileiras.

No livro ainda se descobre que em terras paulistas a língua falada era, predominantemente, a indígena segundo, entre outras fontes citadas pelo autor, as observações do padre Antonio Vieira: “É certo que as famílias dos portugueses e índios de São Paulo, estão tão ligadas hoje umas às outras, que as mulheres e os filhos se criam mística e domesticamente, e a língua que as ditas famílias se fala é a dos índios, e a portuguesa a vão os meninos aprender à escola.”

Aponta no meio do capítulo “novos tempos”, que autores românticos tornaram “possível a criação de um mundo fora do mundo, o amor às letras não tardou em instituir um derivativo cômodo para o horror à nossa realidade cotidiana. Não reagiu contra ela, de uma reação sã e fecunda, não tratou de corrigi-la ou dominá-la; esqueceu-a, simplesmente, ou detestou-a, provocando desencantos precoces e ilusões de maturidade. Machado de Assis foi a flor dessa planta de estufa.”
[Ora, o escritor é assim, tem o direito de sair da realidade e criar situações novas, ficções, inspiradas, suas, ascender à poesia que o afastam do horror da realidade. Toda a literatura de Machado, que está aí até hoje e sempre reverenciada talvez se enfraquecesse se fizesse referência ou descrevesse, por exemplo, à imundice que saltava pelas ruas do Rio de Janeiro. Muitos horrores se foram e Machado de Assis, ficou].

Sobre o Segundo Reinado e da Primeira República, “as constituições feitas para não serem cumpridas, as leis existentes para serem violadas, tudo em proveito de indivíduos e de oligarquias, são fenômeno corrente em toda a história da America do Sul” – o significado de tal afirmação no fundo se refere “às primazias das conveniências particulares sobre os interesses de ordem coletiva...”
[Com efetividade o fenômeno do descumprimento da lei e da Constituição por aqueles que detêm influência por causa do seu vigor econômico quando não parte do poder político é uma realidade. Que o digam as milhares de ações que se avolumam nos tribunais há anos e anos e ainda hoje. Todavia, quanto aos tribunais, constata-se que há posicionamentos mais rigorosos  que podem mudar o perfil de país de tal maneira que se consiga a “ordem” proclamada na bandeira].      

Há um sentido crítico à “cordialidade” que sempre prevaleceu por aqui e até hoje visitantes de outros países ressaltam essa característica brasileira que nem sempre seria saudável quando se trata de relações impessoais, do Estado impessoal – separação do público e do privado. A observação é minha trazendo esse aspecto para o presente: o denominado “processo do mensalão” não tem algo da permanência do “estado cordial”?

Mas, ressalte-se que esse conceito, no livro, não é muito claro.

Bem, paro por aqui, reafirmando a dificuldade do texto do autor Sergio Buarque de Holanda em sua obra “Raízes do Brasil”, um clássico muito citado mas tenho dúvidas se lido na mesma proporção.



Nietzsche

Mas, o autor que mais me incomoda é Friedrich Nietzsche, apenas Nietzsche, para os mais “íntimos”. Tenho aqui comigo, duas edições de “Assim Falou (ou falava) Zaratustra” que não consigo sair das primeiras páginas, pelo seu texto rebuscado, frases que se perdem numa ideia sem sentido.
Na introdução da edição da “Editora Martin Claret” (2007), de autoria de Scarlett Marton, dissera o próprio Nietzsche sobre esse livro:
“É um livro incompreensível, porque remete exclusivamente a experiência que não partilho com ninguém”. E acrescenta: “Se pudesse dar-lhe uma ideia de meu sentimento de solidão! Nem entre os vivos nem entre os mortos tenho alguém de quem me sinta próximo.”
“Assim Falava Zaratustra” é um livro que tem lá suas parábolas e tenta substituir a figura sempre presente de Deus, pela do Super-Homem:
“Eu vos apresento o Super-homem! O Super-homem é o sentido da terra. Diga a vossa vontade: seja o Super-homem o sentido da terra.”
E sobre Deus:
“Noutros tempos, blasfemar contra Deus era a maior das blasfêmias; mas Deus morreu, e com ele morreram tais blasfemos. Agora, o mais espantoso é blasfemar contra a terra, e ter em maior conta as entranhas do inescrutável do que o sentido da terra.”
Nietzsche na sua maturidade pelos 44 anos de idade, num grave colapso mental, perdeu a razão. Atribui-se sua loucura ao avanço da sífilis, que adquirira na juventude. Com a doença “viveu” por cerca de 11 anos.
No capítulo “Mater Dolorosa” do velho livro (1948) “A Marcha do Tempo” de Stefan Zweig é relatado o drama de sua mãe, cuidando do doente famoso no dia-a-dia:
“Vê-se agora uma velhinha a conduzir, de vez em quando, o seu doente, como a um urso grande e pesadão, pelas ruas e a longos passeios. Afim (sic) de o distrair, recita-lhe intermináveis poesias, que ele escuta em torpor. Guia-o jeitosamente; fá-lo desviar-se das pessoas que o fitam curiosas e dos cavalos que detesta. Sente-se feliz toda vez que consegue reconduzi-lo à casa, sem que ele desperte a curiosidade popular com sua “voz muito alta” (como a senhora delicadamente classifica seus berros selvagens)”.
A mesma autora da “introdução” à edição referida linhas acima, conclui:
“Pensadores, literatos, jornalistas e homens políticos teriam nele um ponto de referência – atacando ou defendendo sua obra, reivindicando ou exorcizando seu pensamento. Quem julgou compreendê-lo equivocou-se a seu respeito; quem não compreendeu, julgou-o equivocado.”
Esse é Nietzsche!
Aonde entro eu nessa história, que sequer consigo ler “Assim falava Zaratustra? – e se conseguir um dia já me darei por satisfeito por ter lido pelo menos uma obra de Nietzsche.

Joyce
Estão aqui comigo as 900 páginas de “Ulisses” de James Joyce, esta edição com tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro. (Editora Objetiva – 2007).
Não há lista de obras “universais” que não esteja “Ulisses” a encimando como leitura obrigatória. A obra de Joyce constitui-se uma paródia à obra clássica “A Odisséia” de Homero.
Cheguei na página 261 e pouco captei. A introdução de cada capítulo explicando onde se insere a saga de Ulisses na obra de Joyce situa-se no final do volume e, do mesmo modo, dezenas de citações dispersas no texto, que só são compreendidas se buscadas as referências também no final do grosso volume.
Melhor estariam no rodapé de cada página.
Esse modo de apresentação cansa e dispersa.
Nesta fase, tendo lido ¼ do livro, já estou em vias de deixá-lo de lado.
Dói a consciência mas seu estilo e essas referências inseridas no final do livro (“Notas”) são, para mim, um entrave.

"1984" e "Admirável mundo novo"

Para conhecer a resenha e comentários do livro "1984" de George Orwell, acessar:

http://resenhadoslivrosqueli.blogspot.com.br/2017/07/12-1984-de-george-orwell.html

"Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley

Para conhecer a resenha e comentários de "Admirável Mundo Novo", acessar:

http://resenhadoslivrosqueli.blogspot.com.br/2017/07/13-admiravel-mundo-novo-de-aldous-huxley.html




O PRESIDENTE NEGRO de Monteiro Lobato

Para conhecer a resenha e comentários de "O Presidente Negro", acessar: 

http://resenhadoslivrosqueli.blogspot.com.br/2017/09/21-o-presidente-negro-de-monteiro-lobato.html


Brown

Li há algum tempo o livro “comercial” de Dan Brown, “O Símbolo Perdido”. Não gostei!
O que há de interessante são as referências positivas à maçonaria no desenvolvimento da trama, além de enaltecer possíveis mensagens cifradas e herméticas que estariam presente no texto da Bíblia, cujos sentidos haveriam que ser objeto de meditação para melhor interpretá-las.
(Sobre esse tema, tenho a crônica “Intuição desvendada” de 20.09.2009).
Como é do estilo do autor, a história se desenrola sob muitos símbolos e simbolismos.
Vale-se o autor Brown de conceitos até elementares de origem esotérica, como aquele que diz “como é encima é embaixo”, significando que o Universo “lá no alto” com seus fenômenos mal compreendidos, inclui a Terra e nós que fazemos parte dela, aliás, este planeta um corpo minúsculo nessa imensidão que se perde sem fim numa noite estrelada.
Curioso que quando escrevia a crônica “Stephen W. Hawking e minhas implicâncias” de 05.09.2010 usava esse mesmo conceito (“como é encima é embaixo”). Mas, num dado momento deu-se um colapso “inexplicável” no computador e o texto foi todo perdido. Para mim, a primeira versão é sempre a melhor. Reescrevi tudo de novo perdendo qualidade e sem usar mais esse conceito.
São aquelas coisas difíceis de entender. Pensei que, com a perda do texto já integralmente escrito, em fase de “salvamento”, não devesse usar mais essa expressão porque não estaria preparado para me referir sobre ela do alto da minha ignorância.
Mas, eis aí.

Lidos ou quase:

• “Memorial do Convento” de José Saramago – português de Portugal, meio rebuscado. Para quem gosta do autor e do seu estilo.

• “A Cabana” de William P. Young

Comecei a ler este livro e não o conclui. O começo fora eletrizante, mas depois de ter o personagem principal recebido um bilhete do "Papai", algumas páginas à frente desisti da leitura. E do livro, é claro. É, todavia, um best seller.


• “1822” de Laurentino Gomes

Um bom livro muito documentado que causa perplexidade ao revelar fatos incríveis da nossa história.

Outros livros

Pipas

Ler livros que caem no gosto popular, podem significar decepções. É que geralmente há pieguices que encobrem um nível de mediocridade na idéia central da história.
Livro com essa característica é o “Caçador de Pipas” de Khaled Hosseini que vendeu e vende ainda aos milhares.
A história se desenvolve num ritmo vibrante. No seu âmago o personagem principal é um covarde que não consegue se redimir nem mesmo quando, delirando, corre atrás de uma pipa que surge pelos ares no final da história.
Inclui uma luta severa – um dos momentos mais destacados do livro – entre esse personagem e um nazista ligado aos talibans, cujo final, inverossímil, poderia ter sido inspirado num filme americano B, daqueles em que John Wayne salva a mocinha da boca do leão ou é salvo pela cavalaria num massacre aos índios. Aliás, o livro explica que esses filmes eram assistidos nos bons tempos do Afeganistão.
O mal do país é, pois, caracterizado por um alemão nazista que, aceito pelos talibans pratica todas as maldades. Afinal, o quê pretendera o autor com esse desvio? Deixar a ideia de que os talibans não eram tão crueis e que a truculência era um fato isolado no país ficando por conta de um nazista tresloucado o serviço sujo? Ou quisera comparar os talibans aos nazistas? Ou quisera ficar bem com os talibans?
Por tudo isso o livro, para mim, é ruim, embora a história seja contada num ritmo vibrante, tanto que é (ou foi) um best seller.
Outro dia o filme baseado nesse livro passou na TV. Tentei assisti-lo mas também não suportei esperar o final. Coisas de best seller.

Cegueira

O best seller "Ensaio sobre a cegueira" de José Saramago também faço restrições.
Porque, para mostrar a miséria humana, não será preciso nestes tempos e há muito, que todos fiquem cegos. Essa a proposta do autor. Mas, as misérias inimagináveis em todos os escalões sociais se dão entre os que bem enxergam. Nesse passo, para diferenciar ou tentar inseri-las num contexto extremo, sem mais nem menos todos ficam cegos. Somente a heroína, é claro, não é afetada.
E por aí vai a história descrevendo os horrores sob a cegueira. Se assistirei ao filme de Fernando Meirelles inspirado no livro? Dificilmente.

Ressalvo de Saramago, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” escrito em 1991 que lançara, então, Maria Magdalena como mulher de Jesus, mas uma prostituta recuperada, na melhor doutrina da Igreja, bem antes do best seller “O Código Da Vinci” de Dan Brown. Como se sabe esse e outros autores erigem Maria Magdalena, não como prostituta, mas a discípula preferida e angelical de Jesus.

Tenho que explicar, sem qualquer presunção até porque Saramago é Nobel, essas minhas impressões tão negativas sobre esses livros: talvez tenha sido influenciado pelos livros de Dostoievski que lera na mesma época: “Os Imãos Karamazovi” e “O Idiota”.
É injusto comparar, mas Dostoievski está disponível há mais de 150 anos. O autor russo tende a rebaixar outros quando suas obras são lembradas. O que fazer?

Imagens / Fotos:

1. Euclides da Cunha, estampa do livro "Os Sertões", edição de 1952 (Livraria Francisco Alves);
2. Nietzsche ao lado de sua genitora (Wikipédia - Google);
3. Retrato de James Joyce (ebooks.adelaide.edu.au)
4. Cena do filme "Ensaio sobre a cegueira" de Fernando Meirelles, da obra de José Saramago


10/10/2010

REAVALIAÇÕES E RENÚNCIAS

REPUBLICAÇÃO: Resolvi republicar esta longa crônica, chamemo-la assim, por conta de um desses momentos de reflexão e desinteligências em que as respostas não vêm para aquelas mesmas perguntas que se perdem no vazio do insondável. A frase não é, para mim, de efeito...

Estava num momento de humildade e ansiedade, olhando para aquelas paredes brancas, sem nenhum atrativo. Havia que me consolar com algumas experiências, que foram tantas na minha vida profissional.
Lembro de Roberto, nome fictício, porque não poderia usar seu nome verdade.
Esse cara fora um caso excepcional de mudança de caráter e de rumo, eu sempre pensei assim.
Roberto fora um executivo de empresa multinacional que um dia "cansado de ser conduzido pela vida" decidiu abandonar a carreira vitoriosa passando a levar vida modesta no litoral paulista, embora desfrutasse de excelente situação financeira.
Lembro-me bem do relato que ouvi numa palestra, naquele dia que me escondi no fundo do modesto auditório, como se pudesse ser reconhecido por todos aqueles a quem não conhecia. E não me conheciam.
Uma certa presunção de minha parte porque, afinal, era gerente médio de multinacional. Bobagem.
A nova forma de viver adotada por ele tinha lá seus momentos de tédio, a despeito de ser ávido ledor e dispor de enorme disposição para apreciar o mar, as paisagens que descobria percorrendo todo o litoral paulista avançando para o norte com seu barco.
Certa feita, só, saiu pelo mar meio sem rumo para pescar. O sol do meio-dia estava muito quente, batendo forte em seu rosto. Sentia certo desconforto com aquele calor intenso, o balanço do barco lhe provocava enjoo, por isso meio arrependido por estar ali, naquele momento. Desviou-se para os intensos movimentos na vara de pesca presa numa saliência externa da cabina.
Um peixe de cerca de 60 centímetros mordera o anzol. Era o primeiro do dia. Sem muita dificuldade, o peixe foi trazido para o barco debatendo-se violentamente relutando à morte certa, posto num chão quente sob sol escaldante.
O peixe ferido querendo a vida, Roberto perturbado pelo sol intenso sobre sua cabeça. Uma leve tontura o prostrara. O enjoo se agravava, ele que superara esse sintoma havia muito depois do vexame numa excursão de alto nível num barco moderno.

Mar agitado, seu estômago não resistiu, resultando no vômito de vento que se prolongou por tempo suficiente para chamar atenção de outros executivos, obrigado a ouvir piadas. A reação de um executivo português debochado:“Estas a vomitar seus pecados”.

Fixando-se no movimento do peixe, sua cabeça começou a rodar. Parecia estar próximo de um desmaio. Com a sensação de estar também preso no anzol? Olhou para o mar e não o viu claramente. Quanto mais procurava enxergá-lo mais ele se transformava num ...deserto. As ondas além transformavam-se em dunas e a leve brisa em tempestade de areia violenta. No meio dela, parecia ver vultos humanos mal formados em movimentos apressados, parecendo acenar para ele. Em vias de perder o sentido, recostou-se na cabine do barco. O peixe debatia-se bravamente ao sol, mas dava agora sinais de sua morte iminente. Roberto voltou-se para ele como pôde, com cuidado livrou-o do anzol e o devolveu ao mar.
- Quem sabe ainda sobreviva, dissera confuso, com o estômago na boca. Veio-lhe a frase de Tolstoi em “Ana Karenina” que jamais esquecera: “Gostava de pescar a linha e parecia envaidecer-se com o fato de apreciar um entretenimento tão estúpido.”
Permanecendo quieto na cabina, bebendo água gelada, molhando a testa suada com ela, foi se recompondo. Uma hora depois, mais disposto, voltou ao controle do barco, retornando à terra, embora ainda tonto com o mar e o deserto que eclodira em sua mente.
A noite fora tranquila. Lá pelas tantas da madrugada, levantou-se e permaneceu na varanda ouvindo o marulho, recebendo no rosto, em cheio, a brisa refrescante de uma noite muito quente.
Mas, claro que a "miragem" do deserto lhe martelava a cabeça. Tudo bem que fora um mal-estar provocado pelo calor, pelo enjoo, pelo sol. Mas, porque a imagem do deserto, suas dunas ampliadas de ondas baixas e a tempestade de areia tão autênticas?
Passara, então, a fazer uma autocrítica. O que significava sua vida, desde que passara a residir no litoral, senão uma vida ociosa, mentalmente estéril, a caça predatória de peixes porque nem sempre os consumia? Afinal, não abominava a caça como esporte, a própria pesca esportiva, tão ridícula e as touradas?
A impressão que tivera então de si próprio é de que se encontrava num processo de decadência mental, porque vida interior ele não possuía nenhuma.
Em poucas palavras: o deserto que vira em sua quase insolação era rigorosamente ele próprio, sua alma clamando por mudanças. Voltou para dentro da sala confortável, entrou no pequeno escritório e consultou um mapa da África. Com o dedo "viajou" por todo o Deserto do Saara, começando pelo Atlântico Norte.
Lá estava o Marrocos e a cidade de Casablanca. Viajou mentalmente embarcando no filme do mesmo nome, que ajudou a celebrizá-la, Ingrid Bergman linda, jovem. Em seus ouvidos, a música do filme soava harmoniosa ("As time goes bye"), cantada por "Sam", até que "Rick" (Humphrey Bogart) melancólico o interrompeu. E nesse momento reencontrou sua ex-amada. Quem dera houvesse um bar como aquele, o "Rick’s Café Americain" do filme!
Decidira que em poucos dias viajaria para o Marrocos, não para encontrar o "Rick’s Café", uma figura de ficção, mas para chegar às margens do Deserto do Saara por aquele país. Viajaria de camelo, conheceria alguns oásis e a vida que neles existia.
Quem sabe, conforme ironicamente pensava, visse o mar no deserto, da mesma forma como vira o deserto no mar.

Dois meses depois, viajou para o Marrocos, rumando logo para Casablanca, a principal cidade do país, moderna, sem perder, mesmo com a forte influência européia, o timbre da cultura árabe. O cenário do filme jamais existira. Talvez nos bairros periféricos pobres afastados do centro da cidade poderia haver alguma semelhança. Só isso.


Uma breve troca de impressões no café do aeroporto de Casablanca com um turista chileno que voltava para o seu país, impressionado com o que vira em sua excursão ao Marrocos lhe alertara da possível decepção.
Dois dias depois viajou para a Tunísia, um país pequeno, pouco conhecido, mas com monumentos excepcionais. Gostou de Tunis. Comunicando-se em inglês, nada fácil num país que fala árabe e francês, conseguiu sobreviver com os resquícios da língua que sempre odiara nos tempos da escola. Hospedou-se num hotel quatro estrelas, simples e confortável com talento de três, porém

Uma tarde, desorientado e cansado de ouvir o som de múltiplos idiomas especialmente o árabe e o francês, parando para se recompor ao lado duma loja de tapetes num dos centros comerciais de Tunis, com muitas ruelas e dezenas de lojas, foi abordado por um dos comerciantes que falou em francês e depois um espanhol rudimentar, língua falada nesses centros comerciais, oferecendo-lhe seus artigos.

Ao saber que era o visitante, brasileiro, quis saber tudo do país, do futebol ao Carnaval e se era a festa pagã tão imoral como falavam e que vira algumas fotos numa revista. Cheio de “mulher pelada”. Roberto explicara que se tratava dum acontecimento com forte apelo turístico e que os abusos vinham diminuindo. O carnaval de rua era sobretudo uma festa do povo na qual se misturavam ricos e pobres que se deslumbrava com o luxo das fantasias e que as escolas eram constituídas de gente simples e sofrida das favelas, na maioria. Eram seus dias de extravasar e esquecer as dificuldades. Mas, que o Brasil não era só carnaval e futebol, havia cidades de grande projeção, como São Paulo.
Antes de sair, comentara que no dia seguinte, porque nada havia planejado, tentaria fazer uma breve excursão pelo deserto, fora do circuito turístico, passando algumas noites na sua imensidão, despojando-se quanto possível do seu “status”. O comerciante com muita simpatia, de pronto apontou para um homem próximo, de pé, do lado oposto da galeria, numa loja de artesanato, alto, pele morena queimada de sol, rosto fino, barba trabalhada. Roberto percebeu que ele os observava. O comerciante chamou-o e ele se aproximou.
- Ele é um excelente guia, você aprenderá muito com ele se quiser que ele o acompanhe. Isso se o senhor abrir mão do luxo. Pode confiar, ele organizará tudo. Ele conhece tudo. Ele speak English.
Ao encará-lo percebeu que seus olhos transmitiam algo diferente, talvez serenidade. Comunicava-se num inglês razoável. Quis saber Roberto de onde era, de que região, se tunisiano o seu possível guia, ele desconversou apenas fazendo um gesto girando a mão direita apontando o indicador para o alto, dando um sentido de que poderia ser daquela região. Revelara-se de poucas palavras.
Dois dias depois, preparado, com as informações precisas e a ajuda do guia taciturno aproximou-se do deserto do Saara enfrentando na viagem algo em torno de 800 quilômetros dentro de um jipão.

Embora existindo opções mais modernas, ao adentrarem no deserto, boa parte do trajeto foi vencido no dorso de camelos, assim preferira Roberto, esses animais admiráveis, mal humorados, nascidos para servir os habitantes e os visitantes do deserto.

Roberto passou a habitar uma tenda e lá, naquele ambiente tão precioso para os nativos, tão simples, convivendo com golfadas de vento forte e tempestades de areia, finíssima, começou a ter impressões do deserto, especialmente ouvindo o seu silêncio.
Numa noite fria do Saara depois de um dia de alta temperatura que o fizera suar em bicas, tivera a primeira sensação da imensidão do universo sem fim, sem começo, sem data, habitado no alto por milhões de corpos celestes. Como tudo aquilo poderia ser possível? Que forças administravam aquele universo cadenciado? Casualidades é que não poderiam ser. Um susto: sob aquela imensidão, tivera despertado, tão marcantemente, a consciência de sua mortalidade. Ou de sua imortalidade...
À medida que insistia em contemplar aquele paisagem, aquela formação de areia a perder de vista e especialmente o teto inatingível do deserto mais reforçava a idéia de sua fragilidade, de sua humilde condição humana. Com dificuldades de comunicação, tendo pouco contato com os demais habitantes, solitário, sentiu-se aliviado ao voltar, saindo do deserto com aquele seu guia que sempre estivera por perto e chegara para acompanhá-lo no retorno. Na viagem depois de um longo silêncio, já se aproximando de Tunis, Roberto comentou:
- Permanecer no deserto, no seu imenso silêncio e imensidão, fez-me mais humilde, mais resignado. Vou pensar muito no que vi e senti.
A resposta seca de seu guia:
- O primeiro passo para a sabedoria, porque você se despoja da vaidade e da arrogância mundanas que para nada servem, só atrapalham aquilo que você parece estar buscando.
- Mas o quê “parece” que eu estou buscando, eu não disse que estivesse buscando algo.
O guia manteve-se em silêncio, olhando a frente pelo parabrisa do veículo, sem se voltar deu uma resposta enigmática:
- Creio que um oásis verdadeiro em sua vida onde você se prostrará, nem tanto o mar e sua brisa, nem tanto o deserto e sua quentura.
Roberto ficara atônito com a resposta pela referência "ao mar", mas silenciou, até porque seu interlocutor fizera o mesmo. No dia em que Roberto se dispôs a voltar para o Brasil, esse seu guia, com a mesma atitude silenciosa despediu-se com alguma simpatia, falando em português, língua que desconhecia, uma única palavra: PAZ !

Roberto era alto, naquela manhã apresentara-se com barba trabalhada grisalha, cabelos também grisalhos, com fios ainda resistindo, rosto escurecido pelo sol, atrás de uma mesa simples, numa pequena sala de sociedade de bairro, propondo-se a falar para não mais do que 30 pessoas, algumas humildes que nas fábricas nas quais fora diretor jamais dele se aproximariam. Seu semblante apagara aquela imagem altiva e mesmo arrogante que transmitia nas fotos estampadas nos jornais e revistas de negócios de outros tempos.
Sua palestra fora até simples, enfatizando os aspectos ecológicos que cada um tinha o dever de se preocupar diante do enfraquecimento das potencialidades da Terra tal a devastação que se processava, o respeito aos animais que são seres vivos em evolução, a busca pela paz interior, meditar como forma de ampliar a consciência, melhorar como indivíduo e o próprio mundo.
Foi bastante didático. Fixou num tripé uma mapa da Europa e do norte da África que trouxera debaixo do braço e com uma varinha de bambu envernizada, parecendo parte de vara de pescar, explicou a localização do Marrocos e da Tunísia e circulou com o indicador todo o imenso deserto do Saara.
Encerrada a palestra, no momento das perguntas Roberto fora mais preciso nas suas ideias.

De uma mulher negra, simpática, cabelos desgrenhados:
- O seu destaque à palavra paz, deixou-me na dúvida. Qual o significado que ela contém, até pelo fato de seu guia do deserto, ao se despedir, tê-la pronunciado em português.
- Porque a paz contem perdão e amor. (Roberto falando de perdão e amor?). Talvez seja o perdão a maior de todas as virtudes, porque pode significar a resignação, até mesmo uma renúncia, diante de uma ofensa ou de uma traição. Vejam que a traição é de tal ordem devastadora, que muitos traidores são tão célebres quanto os traídos ilustres. O perdão sepulta o ódio, o rancor e a vingança, que são forças destrutivas que nos levam a contrair dívidas à luz da balança universal. Ofensor pela sua ofensa e ofendido pela vingança, têm a mesma culpa que permanece registrada na alma de cada um para ser purgada no momento propício. Só o perdão ameniza a culpa do ofensor que pode se arrepender. Eis porque se constitui num gesto tão difícil de ser praticado. O perdão é manifestação de amor. Um chavão muito utilizado em campanhas ou algo assim é profundamente verdadeiro: o amor é construtivo, a antítese do egoísmo, da indiferença e do ódio. Ele pode significar um gesto, um sorriso, uma palavra de estímulo e até mesmo renúncias para ser oferecido em toda a sua plenitude aos semelhantes. Aí está a paz. Não foi Cristo quem recomendou aos seus Apóstolos: encontrando alguém digno na cidade, ao "entrardes na casa, saudai-a dizendo: Paz seja nesta casa"? Vejam! PAZ como saudação cristã.

De um homem com fortes rugas no rosto, cabelos grisalhos, camisa vermelha desbotada:
- O Sr. falou muito em contemplação, meditação, etc. Sei de religiosos que passam a vida meditando. Tal prática não significa uma posição inútil em relação ao mundo que precisa tanto de ações objetivas?
- O homem é muito poderoso pela força de seu pensamento. Há alguns semelhantes nossos que são de extremo brilhantismo e desvendam coisas maravilhosas. O pensamento é uma força poderosa. Formularei uma imagem talvez até já tenham ouvido algo semelhante: já não passaram os senhores nas proximidades de um local fétido e, no meio da deterioração dos elementos, uma flor aparece linda, exalando um perfume que todos aspiraram com prazer e alívio, amenizando a podridão em volta? Todos perguntam: como é possível isso? Pois bem. Esses religiosos, com esse tipo de vida que escolheram, propagando pensamentos de paz, amor, caridade e perdão isolados em suas celas longínquas, são como o perfume da flor a que me referi, expandindo pelo mundo. Muitos captam essas vibrações que permanecem em sintonia própria na nossa esfera mental e, por vezes, como se falassem à própria consciência, mudam repentinamente para melhor a atitude do receptor em relação ao semelhante. Muitos são os perfumes que melhoram o mundo. A oração do devoto pode surtir o mesmo efeito. E infelizmente, os sentimentos de ódio, imagens de ódio, também, mas em sentido contrário.

De um jovem que ouvira tudo de pé, num canto do auditório, rosto redondo com aquele ar cético:
- Parece que, para buscar o autoconhecimento, é preciso ser rico. O Sr. fez uma viagem cara aos desertos. E para os que não têm dinheiro para essas viagens?
- Li em algum lugar uma fábula mais ou menos assim: o discípulo abordava seu mestre, um sábio, todos os dias, dizendo-lhe que queria conhecer a verdade. Depois de muita insistência, certo dia, o sábio convidou o discípulo para irem a uma lagoa próxima. Lá chegando, o sábio num gesto rápido levou a cabeça do discípulo para baixo da água deixando-o assim, por alguns instantes. Quando o discípulo se recompôs da surpresa, o mestre lhe perguntou: - O que você mais desejava quando estava com a cabeça sob a água? Ar, respirar, respirar, respondeu o discípulo ainda atordoado. Com aquela mesma intensidade de respirar deverá partir em busca da verdade, ensinou-lhe o mestre. Claro que esse tipo de "busca da verdade" escapa de nossa vontade imediata. Uma forma alternativa de conseguir alguma maturidade no caminho do conhecimento são exatamente as viagens aos locais conhecidos como sagrados ou julgados inspiradores. Pelas suas vibrações ou por nossa própria receptividade mental em lá estar, podem nos inspirar e nos abrir frestas importantes no nosso autoconhecimento. Mas, mesmo esse recurso é limitado. O aspirante prega a iluminação interior, o encontro da paz, mas num dado momento ele próprio não avança. As revelações interiores estancam. A partir daí, com todo o cuidado no rumo a seguir, talvez seja necessário buscá-la com a mesma intensidade que tinha o discípulo em respirar quando com a cabeça sob as águas do lago. E essa busca dispensa viagens exteriores, só interiores.

De um homem idoso, calvo e sorridente:
- O Senhor é um homem poderoso e rico. Por que agora assume posição tão modesta, vindo falar para pessoas tão simplórias, operários e operárias como nós?
- Certa vez, há muitos anos esbocei algumas poesias e, numa delas, muito antes de saber que seria um "poderoso" - para usar seu qualificativo - escrevi um verso com esta mensagem: "respeitemos o homem que é rei e modesto". Qual a primeira ou a principal das virtudes do ser humano? Amor ao próximo? A honestidade? A lealdade? A amizade? O altruísmo? Se fosse feita essa pergunta a qualquer dos senhores, talvez uma dessas ou todas as mencionadas fossem de pronto citadas. Mas, e a modéstia? Não seria, também, uma destacada virtude? A própria palavra vibra simplória: MODÉSTIA. Ela pode ser usada como algo de pouca expressão: "aquela casa é modesta". Mas, a sua existência como virtude humana, parece agregar um pouco de todas as outras: o amor ao próximo, porque a modéstia respeita o semelhante, a honestidade, porque a modéstia se encaminha para o desprendimento de certos valores normalmente aproveitados pela soberba, a lealdade e a amizade, porque a modéstia tende a não reconhecer a perfídia e defende o altruísmo, porque ela vê pelos seus próprios olhos um semelhante que pode necessitar de ajuda, sem esperar reconhecimento. Tanto que o dicionário Aurélio a define utilizando palavras como "simplicidade", "reserva", "pudor", "decência", "gravidade", "compostura". Ela contém um pouco de todas as outras virtudes ou tem afinidades com elas. Eis porque parece difícil ser-se modesto sempre, desprendido. Nos textos filosóficos a modéstia ocupa lugar especial. Assim, Jesus Cristo, no "Sermão da Montanha", na versão de São Mateus (5, 3), "abrindo a boca" disse: "Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus." Costuma ser aceito como correto significado para "pobres de espírito", os humildes. No "O Evangelho Segundo o Espiritismo" de Allan Kardec: "Por pobres de espírito, entretanto, Jesus não entende os tolos, mas os humildes, e diz que o Reino dos Céus é destes e não dos orgulhosos." Um dos significados de "humildade", no mesmo dicionário, é exatamente a modéstia. Mas, muitas vezes aquele humilde, desprovido de bens, não é necessariamente modesto, mas revoltado, amargo. Pode até ser compreensível esse estado destrutivo pela sua existência dura. A modéstia contempla, também, certa serenidade. Daí ser uma virtude tão excepcional. No "I Ching – O Livro das Mutações", um livro de conhecimento da antiga China, uma espécie de oráculo com tem um método próprio de consulta e há dificuldade de interpretação das mensagens formuladas, surgido "no período anterior à dinastia Chou (1.150-249 a. C.)", na tradução do alemão Richard Wilhelm (*), o hexagrama 15 denominado "modéstia", tem posição destacada: "O destino dos homens segue leis imutáveis que têm de ser cumpridas. Mas o homem tem o poder de moldar seu destino, na medida em que sua conduta o expõe à influência de forças benéficas ou destrutivas. Quando um homem está numa posição elevada e é modesto, ele brilha com a luz da sabedoria. Quando ele está numa posição inferior e é modesto, não pode ser ignorado". Disse tudo aquilo de memória. Essa é a modéstia que me empolga. Aquela que, em vez de enfraquecer, fortalece. Que não pode ser ignorada, porque sobretudo corajosa, um paradigma que às vezes incomoda os circunstantes. Ela é, pois, um referencial. E continuou, depois de um gole de água:
- Mas, o que parece certo é que a soberba é mais agressiva, mais ambiciosa, assustadora e predomina no mundo. Eu sei disso porque convivi nesse mundo de competição e posso dizer que combati a soberba com a soberba. Mas, os tempos mudaram. Sendo a soberba uma não virtude ela tende a manter as desigualdades subestimando ou minimizando as virtudes do respeito ao próximo, da honestidade, da lealdade, do altruísmo. A modéstia contrapõe-se à arrogância e à violência. Proponho, pois, um mundo "modesto"? Uma utopia? Trazer o céu para a terra? Não é bem isso. Seria uma impossibilidade. Sabemos que nosso mundo é naturalmente o mundo das desigualdades. Com ela, a modéstia, cultivada numa permanente autocrítica do indivíduo, possivelmente fizéssemos o mundo apenas um pouco menos desigual, um pouco menos doente. Com mais amor, mais amizade, mais lealdade, mais altruísmo.

Tudo aquilo Roberto dissera sem consultar nenhum texto. Essa agilidade mental poderia explicar sua ascensão profissional invejável.
Depois de uma pausa, olhando fixamente para seus ouvintes, em cada rosto, solenemente:
- Mas, não pensem os senhores que cheguei a esse nível de "modéstia". O que acabei de lhes relatar é apenas uma aspiração pessoal que tenho em mente. Não sei se chegarei um dia a tanto.
Esse foi o último comentário de Roberto.. Acenou para todos e exclamou: Paz! Ao sair foi rodeado pelos seus ouvintes, recebendo-os com um sorriso e apertos de mão.

Eu lá no fundo, perplexo com tudo aquilo, com a transformação daquele que fora espécie de ídolo no meio profissional, retirei-me cabisbaixo. Orgulhosinho ferido, havia uma dorzinha de cotovelo pelas minhas impossibilidades.

(*) Refere-se, creio, à edição da Editora “O Pensamento” – não houve questionamentos da platéia sobre detalhes do I Ching.

Fotos:
1. Mar (Google)
2. Casablanca – centro “Boulevard de Paris” (Wikipédia)
3. Mercado da Medina – Tunis / Tunísia (http://desciclo.pedia.ws/wiki/)
4. Camelos no Deserto do Sahara (http://ilustracoesbiblicas.blogspot.com/