17/10/2010

DOS LIVROS QUE NÃO CONSEGUI (AINDA?) LER. E os já lidos

Há livros que vou e volto e não consigo ir em frente na leitura até o epílogo.
Acho que a cultura perdida num livro não lido pode estar em outro qualquer mais palatável, menos rebuscado.
Há autores que sobem tanto o degrau da intelectualidade que são, para mim, inatingíveis. E livros inatingíveis quando assim os considero, não precisam ser lidos.


Aqui me refiro às obras seguintes entre outras:
"Os Sertões" de Euclides da Cunha
"Grande Sertão: Veredas" de Guimarães Rosa 

"Raízes do Brasil" de Sergio Buarque de Holanda
Friedrich Nietzsche
"Ulisses" de James Joyce
"1984" de George Orwell
"Admirável mundo novo" de Aldous Huxley

"O Presidente Negro" de Monteiro Lobato


Euclides


“Os Sertões”


Para comentários de "O Sertões" de Euclides da Cunha, acessar:

 http://resenhadoslivrosqueli.blogspot.com.br/2017/06/6-os-sertoes-de-euclides-da-cunha.html


Grande SER-TÃO: Veredas

Para comentários de "Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, acessar

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“Raízes do Brasil”

Sérgio Buarque de Holanda, edição da Companhia das Letras de 2004, com 220 páginas (a 1ª edição é de 1936).

Trata-se de uma obra que exige concentração mais apurada na leitura de tal modo que se obtenha o preciso sentido dos conceitos emitidos pelo autor. Creio mesmo que seria bom que fizesse uma segunda leitura do livro  como preciso fazer de “Os Sertões” de Euclides – compromisso que estou em débito.

A referência às raízes do Brasil, significa que o autor voltou aos tempos da colonização portuguesa e bom que se diga que não é ele crítico na medida em que afirma que não é (sempre) possível subestimar a “grandeza dos esforços” de Portugal na exploração das novas terras, embora não nega que tudo se fez “com desleixo e certo abandono”.

Mais, a frente, ao tratar da “persistência da lavoura de tipo predatório”, a exemplo do que denunciara 
Euclides em “Os Sertões”, não deixa o Autor de destacar o uso do fogo na agricultura quando chega aos detalhes de explanar sobre o uso da enxada e do arado:

“Mostra-se nesse trabalho como o recurso às queimadas deve parecer aos colonos estabelecidos em mata virgem de uma patente necessidade que não lhes ocorre, sequer, a lembrança de outros métodos de desbravamento”.

A prática do fogo permanece até hoje, como se sabe, devastando largas extensões de florestas brasileiras.

No livro ainda se descobre que em terras paulistas a língua falada era, predominantemente, a indígena segundo, entre outras fontes citadas pelo autor, as observações do padre Antonio Vieira: “É certo que as famílias dos portugueses e índios de São Paulo, estão tão ligadas hoje umas às outras, que as mulheres e os filhos se criam mística e domesticamente, e a língua que as ditas famílias se fala é a dos índios, e a portuguesa a vão os meninos aprender à escola.”

Aponta no meio do capítulo “novos tempos”, que autores românticos tornaram “possível a criação de um mundo fora do mundo, o amor às letras não tardou em instituir um derivativo cômodo para o horror à nossa realidade cotidiana. Não reagiu contra ela, de uma reação sã e fecunda, não tratou de corrigi-la ou dominá-la; esqueceu-a, simplesmente, ou detestou-a, provocando desencantos precoces e ilusões de maturidade. Machado de Assis foi a flor dessa planta de estufa.”
[Ora, o escritor é assim, tem o direito de sair da realidade e criar situações novas, ficções, inspiradas, suas, ascender à poesia que o afastam do horror da realidade. Toda a literatura de Machado, que está aí até hoje e sempre reverenciada talvez se enfraquecesse se fizesse referência ou descrevesse, por exemplo, à imundice que saltava pelas ruas do Rio de Janeiro. Muitos horrores se foram e Machado de Assis, ficou].

Sobre o Segundo Reinado e da Primeira República, “as constituições feitas para não serem cumpridas, as leis existentes para serem violadas, tudo em proveito de indivíduos e de oligarquias, são fenômeno corrente em toda a história da America do Sul” – o significado de tal afirmação no fundo se refere “às primazias das conveniências particulares sobre os interesses de ordem coletiva...”
[Com efetividade o fenômeno do descumprimento da lei e da Constituição por aqueles que detêm influência por causa do seu vigor econômico quando não parte do poder político é uma realidade. Que o digam as milhares de ações que se avolumam nos tribunais há anos e anos e ainda hoje. Todavia, quanto aos tribunais, constata-se que há posicionamentos mais rigorosos  que podem mudar o perfil de país de tal maneira que se consiga a “ordem” proclamada na bandeira].      

Há um sentido crítico à “cordialidade” que sempre prevaleceu por aqui e até hoje visitantes de outros países ressaltam essa característica brasileira que nem sempre seria saudável quando se trata de relações impessoais, do Estado impessoal – separação do público e do privado. A observação é minha trazendo esse aspecto para o presente: o denominado “processo do mensalão” não tem algo da permanência do “estado cordial”?

Mas, ressalte-se que esse conceito, no livro, não é muito claro.

Bem, paro por aqui, reafirmando a dificuldade do texto do autor Sergio Buarque de Holanda em sua obra “Raízes do Brasil”, um clássico muito citado mas tenho dúvidas se lido na mesma proporção.



Nietzsche

Mas, o autor que mais me incomoda é Friedrich Nietzsche, apenas Nietzsche, para os mais “íntimos”. Tenho aqui comigo, duas edições de “Assim Falou (ou falava) Zaratustra” que não consigo sair das primeiras páginas, pelo seu texto rebuscado, frases que se perdem numa ideia sem sentido.
Na introdução da edição da “Editora Martin Claret” (2007), de autoria de Scarlett Marton, dissera o próprio Nietzsche sobre esse livro:
“É um livro incompreensível, porque remete exclusivamente a experiência que não partilho com ninguém”. E acrescenta: “Se pudesse dar-lhe uma ideia de meu sentimento de solidão! Nem entre os vivos nem entre os mortos tenho alguém de quem me sinta próximo.”
“Assim Falava Zaratustra” é um livro que tem lá suas parábolas e tenta substituir a figura sempre presente de Deus, pela do Super-Homem:
“Eu vos apresento o Super-homem! O Super-homem é o sentido da terra. Diga a vossa vontade: seja o Super-homem o sentido da terra.”
E sobre Deus:
“Noutros tempos, blasfemar contra Deus era a maior das blasfêmias; mas Deus morreu, e com ele morreram tais blasfemos. Agora, o mais espantoso é blasfemar contra a terra, e ter em maior conta as entranhas do inescrutável do que o sentido da terra.”
Nietzsche na sua maturidade pelos 44 anos de idade, num grave colapso mental, perdeu a razão. Atribui-se sua loucura ao avanço da sífilis, que adquirira na juventude. Com a doença “viveu” por cerca de 11 anos.
No capítulo “Mater Dolorosa” do velho livro (1948) “A Marcha do Tempo” de Stefan Zweig é relatado o drama de sua mãe, cuidando do doente famoso no dia-a-dia:
“Vê-se agora uma velhinha a conduzir, de vez em quando, o seu doente, como a um urso grande e pesadão, pelas ruas e a longos passeios. Afim (sic) de o distrair, recita-lhe intermináveis poesias, que ele escuta em torpor. Guia-o jeitosamente; fá-lo desviar-se das pessoas que o fitam curiosas e dos cavalos que detesta. Sente-se feliz toda vez que consegue reconduzi-lo à casa, sem que ele desperte a curiosidade popular com sua “voz muito alta” (como a senhora delicadamente classifica seus berros selvagens)”.
A mesma autora da “introdução” à edição referida linhas acima, conclui:
“Pensadores, literatos, jornalistas e homens políticos teriam nele um ponto de referência – atacando ou defendendo sua obra, reivindicando ou exorcizando seu pensamento. Quem julgou compreendê-lo equivocou-se a seu respeito; quem não compreendeu, julgou-o equivocado.”
Esse é Nietzsche!
Aonde entro eu nessa história, que sequer consigo ler “Assim falava Zaratustra? – e se conseguir um dia já me darei por satisfeito por ter lido pelo menos uma obra de Nietzsche.

Joyce
Estão aqui comigo as 900 páginas de “Ulisses” de James Joyce, esta edição com tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro. (Editora Objetiva – 2007).
Não há lista de obras “universais” que não esteja “Ulisses” a encimando como leitura obrigatória. A obra de Joyce constitui-se uma paródia à obra clássica “A Odisséia” de Homero.
Cheguei na página 261 e pouco captei. A introdução de cada capítulo explicando onde se insere a saga de Ulisses na obra de Joyce situa-se no final do volume e, do mesmo modo, dezenas de citações dispersas no texto, que só são compreendidas se buscadas as referências também no final do grosso volume.
Melhor estariam no rodapé de cada página.
Esse modo de apresentação cansa e dispersa.
Nesta fase, tendo lido ¼ do livro, já estou em vias de deixá-lo de lado.
Dói a consciência mas seu estilo e essas referências inseridas no final do livro (“Notas”) são, para mim, um entrave.

"1984" e "Admirável mundo novo"

Para conhecer a resenha e comentários do livro "1984" de George Orwell, acessar:

http://resenhadoslivrosqueli.blogspot.com.br/2017/07/12-1984-de-george-orwell.html

"Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley

Para conhecer a resenha e comentários de "Admirável Mundo Novo", acessar:

http://resenhadoslivrosqueli.blogspot.com.br/2017/07/13-admiravel-mundo-novo-de-aldous-huxley.html




O PRESIDENTE NEGRO de Monteiro Lobato

Para conhecer a resenha e comentários de "O Presidente Negro", acessar: 

http://resenhadoslivrosqueli.blogspot.com.br/2017/09/21-o-presidente-negro-de-monteiro-lobato.html


Brown

Li há algum tempo o livro “comercial” de Dan Brown, “O Símbolo Perdido”. Não gostei!
O que há de interessante são as referências positivas à maçonaria no desenvolvimento da trama, além de enaltecer possíveis mensagens cifradas e herméticas que estariam presente no texto da Bíblia, cujos sentidos haveriam que ser objeto de meditação para melhor interpretá-las.
(Sobre esse tema, tenho a crônica “Intuição desvendada” de 20.09.2009).
Como é do estilo do autor, a história se desenrola sob muitos símbolos e simbolismos.
Vale-se o autor Brown de conceitos até elementares de origem esotérica, como aquele que diz “como é encima é embaixo”, significando que o Universo “lá no alto” com seus fenômenos mal compreendidos, inclui a Terra e nós que fazemos parte dela, aliás, este planeta um corpo minúsculo nessa imensidão que se perde sem fim numa noite estrelada.
Curioso que quando escrevia a crônica “Stephen W. Hawking e minhas implicâncias” de 05.09.2010 usava esse mesmo conceito (“como é encima é embaixo”). Mas, num dado momento deu-se um colapso “inexplicável” no computador e o texto foi todo perdido. Para mim, a primeira versão é sempre a melhor. Reescrevi tudo de novo perdendo qualidade e sem usar mais esse conceito.
São aquelas coisas difíceis de entender. Pensei que, com a perda do texto já integralmente escrito, em fase de “salvamento”, não devesse usar mais essa expressão porque não estaria preparado para me referir sobre ela do alto da minha ignorância.
Mas, eis aí.

Lidos ou quase:

• “Memorial do Convento” de José Saramago – português de Portugal, meio rebuscado. Para quem gosta do autor e do seu estilo.

• “A Cabana” de William P. Young

Comecei a ler este livro e não o conclui. O começo fora eletrizante, mas depois de ter o personagem principal recebido um bilhete do "Papai", algumas páginas à frente desisti da leitura. E do livro, é claro. É, todavia, um best seller.


• “1822” de Laurentino Gomes

Um bom livro muito documentado que causa perplexidade ao revelar fatos incríveis da nossa história.

Outros livros

Pipas

Ler livros que caem no gosto popular, podem significar decepções. É que geralmente há pieguices que encobrem um nível de mediocridade na idéia central da história.
Livro com essa característica é o “Caçador de Pipas” de Khaled Hosseini que vendeu e vende ainda aos milhares.
A história se desenvolve num ritmo vibrante. No seu âmago o personagem principal é um covarde que não consegue se redimir nem mesmo quando, delirando, corre atrás de uma pipa que surge pelos ares no final da história.
Inclui uma luta severa – um dos momentos mais destacados do livro – entre esse personagem e um nazista ligado aos talibans, cujo final, inverossímil, poderia ter sido inspirado num filme americano B, daqueles em que John Wayne salva a mocinha da boca do leão ou é salvo pela cavalaria num massacre aos índios. Aliás, o livro explica que esses filmes eram assistidos nos bons tempos do Afeganistão.
O mal do país é, pois, caracterizado por um alemão nazista que, aceito pelos talibans pratica todas as maldades. Afinal, o quê pretendera o autor com esse desvio? Deixar a ideia de que os talibans não eram tão crueis e que a truculência era um fato isolado no país ficando por conta de um nazista tresloucado o serviço sujo? Ou quisera comparar os talibans aos nazistas? Ou quisera ficar bem com os talibans?
Por tudo isso o livro, para mim, é ruim, embora a história seja contada num ritmo vibrante, tanto que é (ou foi) um best seller.
Outro dia o filme baseado nesse livro passou na TV. Tentei assisti-lo mas também não suportei esperar o final. Coisas de best seller.

Cegueira

O best seller "Ensaio sobre a cegueira" de José Saramago também faço restrições.
Porque, para mostrar a miséria humana, não será preciso nestes tempos e há muito, que todos fiquem cegos. Essa a proposta do autor. Mas, as misérias inimagináveis em todos os escalões sociais se dão entre os que bem enxergam. Nesse passo, para diferenciar ou tentar inseri-las num contexto extremo, sem mais nem menos todos ficam cegos. Somente a heroína, é claro, não é afetada.
E por aí vai a história descrevendo os horrores sob a cegueira. Se assistirei ao filme de Fernando Meirelles inspirado no livro? Dificilmente.

Ressalvo de Saramago, “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” escrito em 1991 que lançara, então, Maria Magdalena como mulher de Jesus, mas uma prostituta recuperada, na melhor doutrina da Igreja, bem antes do best seller “O Código Da Vinci” de Dan Brown. Como se sabe esse e outros autores erigem Maria Magdalena, não como prostituta, mas a discípula preferida e angelical de Jesus.

Tenho que explicar, sem qualquer presunção até porque Saramago é Nobel, essas minhas impressões tão negativas sobre esses livros: talvez tenha sido influenciado pelos livros de Dostoievski que lera na mesma época: “Os Imãos Karamazovi” e “O Idiota”.
É injusto comparar, mas Dostoievski está disponível há mais de 150 anos. O autor russo tende a rebaixar outros quando suas obras são lembradas. O que fazer?

Imagens / Fotos:

1. Euclides da Cunha, estampa do livro "Os Sertões", edição de 1952 (Livraria Francisco Alves);
2. Nietzsche ao lado de sua genitora (Wikipédia - Google);
3. Retrato de James Joyce (ebooks.adelaide.edu.au)
4. Cena do filme "Ensaio sobre a cegueira" de Fernando Meirelles, da obra de José Saramago


3 comentários:

Camilo Irineu Quartarollo disse...

Milton, já li muito sobre Euclides da Cunha, mas o livro Os Sertões... ainda estou pelas veredas de Guimarães. Pode? Vi o filme, mas o livro...
Uma dica, leia a Consciência de Zeno, de Italo Svevo e para alegrar a alma Dom Camilo e seu Pequeno Mundo ou outro da série de Giovanni Guaresqui (só dica). No Seminário Seráfico São Fidélis tem esses clássicos à disposição dos leitores com comprovantes de endereço e cadastro.
Um abraço e feliz natal.
Camilo.

Camilo Irineu Quartarollo disse...

Milton, já li muito sobre Euclides da Cunha, mas o livro Os Sertões... ainda estou pelas veredas de Guimarães. Pode? Vi o filme, mas o livro...
Uma dica, leia a Consciência de Zeno, de Italo Svevo e para alegrar a alma Dom Camilo e seu Pequeno Mundo ou outro da série de Giovanni Guaresqui (só dica). No Seminário Seráfico São Fidélis tem esses clássicos à disposição dos leitores com comprovantes de endereço e cadastro.
Um abraço e feliz natal.
Camilo.

Camilo disse...

Milton, tem também O Efeito Espacial de 53 páginas, muito bom para leitor vagabundo como eu e o autor sou eu mesmo. A fonte é tamanho 14 e custa...R$14,00.